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 Sincretismo na sala de aula

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MensagemAssunto: Sincretismo na sala de aula   Seg Nov 23, 2009 6:33 pm

Sincretismo
Ouvimos muito esta palavra durante o curso de história. Às vezes utilizada com significados diversos (o que não é incomum, pois os conceitos naturalmente se modificam para cada vertente e dentro das vertentes, para cada autor). A origem do termo vem da história antiga, significando, em tradução livre, união dos cretenses (que, mesmo sendo diferentes entre si e com seus conflitos internos, se juntavam contra um inimigo esterno comum). O conceito utilizado aqui, no entanto, é similar, porém com outra conotação. Utilizarei o conceito de Herskovitz como apresentado por Liana Salvia Trindade no artigo “Convergência e Conflitos de Interpretação do Real: A Festa de Corpos Christi Como Representação Paradigmática da Diversidade Cultural” disponível no site www.imaginario.com.br. Segue uma citação do artigo:
O conceito de sincretismo como uma forma de reinterpretação, segundo define Herskovitz, possibilita uma compreensão mais ampla desse processo de interpretação de culturas. Segundo o contexto metodológico do autor, reinterpretação revela, como conceito precursor das atuais teorias antropológicas interpretativas, os diferentes significados que os agentes sociais atribuem aos símbolos da vida social. Herskovitz define reinterpretação como um processo pelo qual os antigos significados inscrevem-se em novos elementos ou mediante o qual os valores mudam a significação cultural das velhas formas.
Com base neste conceito, entendo que o sincretismo não é algo exclusivo da historia das religiões, mas vai além, sendo viável a sua utilização em vários outros campos da história. Escolhi especificamente este conceito para historia do Brasil, pois somos um povo inegavelmente sincrético: embora o eixo principal de nossa cultura seja voltado a uma herança européia, diversas outras culturas se misturam com a herança portuguesa para moldar nossa identidade.
Os primeiros intelectuais que pensaram qual deveria ser a identidade de nosso povo, levaram em consideração as três raças presentes na “construção” do Brasil: o negro, o índio e o branco. Ora, hoje nosso país é formado não por três, mas por várias, ou se preferirem, por uma: o homem! Temos representantes de um sem número de culturas em nosso país. Culturas que se cruzam e se reinventam. Isso, caríssimos, é o sincretismo no nosso dia-a-dia, batendo em nossa porta, esbofeteando os que pensam a cultura como algo estático e imutável.
Então, a proposta aqui é, em sala de aula,
A. demonstrar os sincretismos que aconteceram na história do Brasil, para a compreensão dos que ainda acontecem.
B. Levar os estudantes à compreensão do outro (como previsto na LDB).
Para a educação, o sincretismo possui um significado ainda mais importante: o reconhecimento da cultura do outro na sua própria. Na LDB, tópicos como história da áfrica e história regional foram acrescentados ao currículo e na mesma legislação, uma das responsabilidades do professor de história é promover o reconhecimento da diferença. Reconhecer o outro é aceitar suas diferenças. E, creio, uma das formas mais eficazes é fazer com que o aluno enxergue traços do outro em si.

Para isso, escolhi dois tópicos:
A. A cristianização da religiosidade negra no Brasil
B. O santo daime e as religiões daimistas.
A cristianização da religiosidade negra no Brasil:
Para muitos, tratar de religiosidade em sala de aula é um tabu. Temos medo de ofender, ou pelo menos essa é a desculpa mais utilizada. Creio que o mais difícil é conseguir falar do assunto sem partir para o doutrinamento. Já presenciei um professor se referir às religiões afro-brasileiras como macumbaria. Durante meu estágio no CEPAE, ao saber que eu abordaria o tema do candomblé, uma aluna me chamou em um canto depois da aula e me confidenciou (baixo, para que ninguém a ouvisse) que era filha de mãe de santo e que era a primeira vez que alguém falava sobre sua religião, dizendo estar muito animada para assistir a aula, mas pedindo que eu não contasse para ninguém, pois os colegas poderiam segregá-la.
Creio que procedi corretamente ao abordar o tema, pois a aceitação pelos alunos foi incrível. Não houve desrespeito por parte de nenhum deles. Nem mesmo no momento que foram colocadas musicas “de terreiro” houve desconforto por parte dos alunos. Ao final da aula, duas coisas me chamaram a atenção: alguns alunos pediram cópia do CD utilizado e a mesma aluna que havia me pedido para não contar sobre sua religião, me procurou para agradecer pela aula.
Talvez o tema de religiosidade seja um problema justamente por ser tratado com desrespeito.
A matéria desta aula começou com uma breve explicação sobre sincretismo, a mesma que falei no inicio, mas de forma mais didática, simplificando um pouco os termos.
Logo em seguida discorri sobre o processo pelo qual os negros adaptaram sua religiosidade aos nomes dos santos do cristianismo, preservando o caráter original de cada orixá, que recebiam os nomes de santos com simbologias equivalentes. Uma explicação sobre os termos mais comuns como o que é macumba, o ebó, etc. se mostrou necessário nesse momento.
Não havia nada no livro didático deles (em minha pesquisa durante o estágio, achei apenas uns poucos que tratavam toscamente da história da áfrica, mas nada sobre religião) e ainda não tive conhecimento de livros didáticos que tratem sobre o tema, embora seja pertinente à realidade dos alunos (segundo o censo de 2000 pelo IBGE, 2% da população brasileira).
A historiografia parece dar muito valor ao tema, pois é fácil encontrar boas obras que tratam do tema.

O santo daime e as religiões daimistas.
Durante a década de 1920 foi fundada no Brasil uma religião que vem tendo uma visibilidade cada vez maior dentro e fora do Brasil: o Santo Daime. Criada por Raimundo Irineu Serra, esta religião de matriz cristã agregou elementos do xamanismo andino, principalmente uma bebida andina chamada de Ayahuasca, resultante da decocção de duas plantas nativas da floresta amazônica um cipó (douradinho, ou jagube ou mariri) e uma folha (chacrona). Esta bebida, que Irineu conheceu na Bolívia, é o que diferencia o Santo Daime de outras religiões cristãs. Ela induz um estado contemplativo e de introspecção e é utilizada nos ritos como uma forma de potencializar a experiência com o divino.
Em 2004 após alguns anos de estudo, O CONAD emite parecer reconhecendo a legitimidade, juridicamente, do uso religioso da Ayahuasca (Diário Oficial da União, Edição 214, Seção 1, 08/11/2004, pg. Cool em todo o território nacional. No mesmo ano, a ONU emitiu um parecer similar e pediu a todos os países que fossem flexíveis com o uso religioso da Ayahuasca.
Como religião sincrética desde suas raízes, o Santo Daime possui hoje várias vertentes, que adquirem traços culturais diversos, como por exemplo o Umbandaime (miscigenação entre Umbanda e o Santo daime) e outras que se voltaram para o caráter Xamãnista do mesmo.
Em sala de aula, abordar este tema demanda cuidado, por ser uma religião que envolve em seus ritos o uso de substancias psicoativas. Penso que o tema deva ser abordado como suporte aos temas de sincretismo e não como tema principal de uma aula.
A importância deste tema é tratar de religiosidades que demonstram a grande diversidade religiosa e cultural de nosso país e também esclarecer sobre um tema que tem ganho cada vez maior espaço na mídia.
Não encontrei menções sobre o assunto em livros didáticos, embora as três maiores redes de TV do Brasil já tenham exibido documentários sobre o tema. E na historiografia, poucos autores falam sobre o tema. De fato, os trabalhos acadêmicos que encontrei sobre o assunto, são em sua quase totalidade obras de antropologia.
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